domingo, 21 de setembro de 2008

Bom Som no Quintal

Após um bom tempo sem passar pelo Quintal da Música, foi com um prazer enorme que pude assistir ontem à actuação do Zé Rui, bem coadjuvado por Djim Djob, Kalu Monteiro e To Alves. E Como se não bastasse, ainda subiram ao Palco oKim Alves e a Guty Duarte. O show foi marcado por um clima envolvente, em que artistas e público mantiveram, o tempo todo, uma cumplicidade escandalosa.

Como é bom saber que, na nossa Capital, contrariando alguns vaticínios, a execução musical live de qualidade ainda está presente!!

Malandragem

O crioulo não pára de inventar manobras para sobreviver. Há coisa de dez dias, uma sexta feira por sinal, um jovem ardina vendia o Jornal A Semana, quando se sabe que o Jornal tem estado de férias ultimamente. Muitos desavisados e distraídos compraram gato por lebre, ou seja, jornais que já saíram há mais de mês e meio. O jovem, que estrategicamente só vendia para quem passava de carro, tomava o cuidado de dobrar o Jornal na hora de entregá-lo ao comprador. O interessante é que, quando flagrado, não hesitava em devolver o dinheiro ao comprador, e sem dar um pio!

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Luso-Cabo- Descendentes: Falta Coerência

A propósito do Post Agastado do Cesar Schofield sobre os Luso-cabo-descendentes, eu penso que o erro está dos dois lados, do nosso e do deles.

Quando se trata de situações desagradáveis, tanto um lado quanto o outro procura distanciar,-se, ou seja, numa situação em que há, por exemplo, algum crime envolvendo um português de origem cabo-verdiana, do lado português procura-se realçar a descendência e, do nosso lado, há quase que uma revolta por causa da enfase na ligação do delinquente ao nosso país.

E quando se trata de coisas boas , tanto um como outro fazem questão de reinvindicar a nacionalidade dos bons feitos. Por exemplo, quando um atleta português de origem cabo-verdiana ganha uma medalha nos Jogos Olímpicos, como é o caso do Nelson Evora, a descendência costuma ser esquecida pelos Mass Media da Terra de Camões, e há quase que uma revolta em Cabo Verde, mas por causa da não referência a essa ligação a Cabo Verde.

Enfim, tanto um lado quanto o outro devem ser coerentes na sua forma de abordar essa questão de nacionalidade e descendência.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Caminhamos para a “Música Popular Cabo-Verdiana” (MPC) ?

É cada vez mais difícil enquadrar as músicas feitas pelos cabo-verdianos nos diferentes géneros e estilos nacionais, muito por culpa da liberdade criativa que se tem traduzido em fusões de vária ordem.

E por que não, por exemplo, passar a chamar essa nova tendência de MPC (Música Popular Cabo-verdiana)? Isto evitaria aquela longa dissertação de que a música do Tcheka, do Vadú ou do Princezito, e de tantos outros, tem elementos do batuku, da tabanka, do talulu, do finaçon ou do funaná com influências de blá blá blá… para no final alguém discordar e dizer: “não, na verdade, essas canções não são nada disso, pois são baseadas nos ritmos mandinga com influência do jazz, do blues, da bossa nova, blá, blá, blá…” . O Refilon teria também o seu enquadramento facilitado enquanto grupo criador de géneros e estilos nacionais.

A ideia do MPC é claramente inspirada no MPB (Música Popular Brasileira), um género composto por uma plêiade de estilos e propostas musico-sócio-culturais daquele povo. Mas assim como aconteceu no Brasil numa dada altura, poder-se-á colocar a questão se a morna, a coladeira, o funaná e os demais géneros nacionais não terão também a legitimidade de serem MPC. A ideia é de uma Música Popular Cabo-verdiana (MPC), mas stricto sensu, que diga respeito a essa nova proposta de música aberta ao mundo, mas que preserva elementos de identidade sócio-cultural dos cabo-verdianos.

Fico à espera de reacções.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Testemunhos Diários do Frenesi Chinês

Com os Jogos Olímpicos à porta, nada melhor do que acompanhar o frenesi diário que se vive na China, nestes últimos tempos, com duas propostas brasileiras:

· http://blog.estadao.com.br/blog/claudia/ - da Cláudia Trevisan, correspondente em Pequim do Grupo Estado (proprietário do Jornal Estado de São Paulo) e autora do livro "China - O Renascimento do Império

· http://raulnachina.folha.blog.uol.com.br/ - de Raul Juste Lopes, correspondente do Jornal Folha de São Paulo em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura (Brasil).

Pessoal, VALE A PENA CONFERIR!!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O "Refresco" dos TACV

“Avion dja toka lumi!!” Foi o suficiente para gerar pânico no Aeroporto Internacional da Praia na tarde de Domingo último, um dia aliás marcado por muitos acidentes (ou incidentes, como queiram). O Airbus alugado pelos TACV acabara de aterrar vindo de Lisboa, mas acabou por passar a pista. Mas finalmente, e felizmente, tudo não passou de um grande susto.

Bem, a seguir a toda a balbúrdia, começou-se a especular sobre as causas. “Di serteza, ê kês pilôtu stranjêru la, és dêbi ter tomadu sis bom águ. És ta anda pa riba y pa baxu na aeroportu ku serveja na mô Kára pôdri.” Disse ao pé de mim um Senhor que garante saber do que fala.

No meio disto, eis que dos altifalantes do Aeroporto uma voz convida os passageiros com destino a Lisboa, e que se encontravam já na sala de embarque, a abandonarem a sala, em função do problema operacional que não especificaram, mas o qual todo o mundo já sabia. Mesmo ao meu lado, uma senhora, por sinal uma das (a)visadas, reclamava: “és tem ki trata tudu alguém igual. Si krê n-mora li sin sin dianti di Aeroportu, és tem ki tratam igual a otus alguém ki bem di lonji. Pra já, és ka ta sabi kem ki mora li Praia ou la fora”.

A mesma voz do altifalante, instantes depois, faz um novo convite a estes mesmos passageiros, alguns dos quais tinham vindo do Interior: deslocarem-se ao bar-lanchonete do Aeroporto e tomarem … um refresco!

Este convite foi motivo de chacota por parte dos que estavam no interior do Aeroporto.

Seria muito mais sensato falar de lanche. Provavelmente, os Passageiros terão tido direito a um lanche, não sei, mas o mínimo nesta situação era anunciá-lo ao invés de um refresco. Estes pequenos detalhes costumam fazer muita diferença.

Música Minha no Djaroz

Depois de algum tempo sem...tempo, eis que volto ao vosso convívio. Para (re)começar, nada melhor do que uma novidade musical. Tempo di Mininu é uma música que fiz pensando nas boas lembranças da infância. Espero que gostem! (para ouvir, clicar aqui)


Tempo di Mininu

(Djoy Amado)

Mi n-ta lembra di kel vontadi di bira grandi

K’ê pa n-serba livri di tudu privasson

Fórti n-kria kórri txada à vontadi

Liberdadi di vivi sem medo riprienson

Más kel li ê só ponta d’Iceberg

Pamodi nu fundu mi era mutu mas alegri

na nha infância

Mas ami à midida ki n-bá ta kêrsi

Kel ladu alegri di infância bá ta perdi

Ta distânsia

Ê lembransas tão bunitus

Ki n-tem vontadi, sim

Di bira mininu más um bês

(li na Praia Maria)

Ê lembransas tão bunitus

Ki n-tem um sodadi sem fim

n-kre nha tempu di mininu mas um bez

n-kre nha tempu di mininu mas um bez


sexta-feira, 25 de julho de 2008

Djaroz em Processo de Remodelação

Oi Pessoal, o Djaroz está "fechado para balanço". Prometo voltar em breve, e com novidades! ATÉ LÁ!!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Autárquicas 2008: Pais, Filhos e... Elefantes Brancos

Não me lembro de ter ouvido algum(a) candidato(a) dizer que se ganhar a Câmara as comunidades terão uma participação activa na escolha do que é prioridade na lista infindável de acções e projectos que a sua equipa pretende materializar. Penso que a forma como pensamos a política centra-se ainda muito nos resultados (fins) e muito pouco ou quase nada nas estruturas e processos (meios). Por causa disso, corre-se o risco de construir infra-estruturas (os ditos elefantes brancos) ou produzir outros bens ou serviços que não são utilizados ou aproveitados pelas comunidades locais. Enfim, reina ainda um espírito de paternalismo político em que os(as) autarcas são os pais e as comunidades são os filhos de quem deve se cuidar, visão essa que está muito longe da parceria sociedade civil – sociedade política que enforma os princípios da Good Governance.

Para ilustrar as consequências nefastas dessa abordagem vertical (up-bottom) de fazer política, deixo-vos com um exemplo ilustrativo que li algures e que parafraseio: numa aldeia rural de algum canto deste nosso planeta, técnicos da autoridade governamental, num diagnóstico à comunidade feito somente na base de Observação Directa, constataram que as mulheres gastavam duas horas (ir e vir) para conseguir água potável. Com base nisso, e sem consultar ninguém, concluíram que uma das prioridades dessa comunidade era a construção de um poço que permitisse um acesso mais rápido à água, liberando assim tempo para outros afazeres. Passo algum período, foi construído o poço, alvo de inauguração com pompa e circunstância. Seis meses depois, os mesmos técnicos voltaram ao local para avaliar os efeitos e o impacto daquela acção na vida da comunidade e, em particular, na daquelas pobres mulheres. Mas para o espanto daqueles técnicos, o poço estava complemente tomado de pedras. Ao perguntarem quem tinha feito aquilo, ficaram atónitos com a resposta: as mulheres!

Sem compreender o porquê de tal atitude, pois afinal elas eram supostamente as beneficiárias directas dessa acção, os técnicos resolveram reunir com elas e ouvir da sua justiça. Elas contaram que aquelas duas horas para a apanha de água eram uma oportunidade para trocarem impressões entre si, conviverem um pouco, ao mesmo tempo que os homens cuidavam da lavoura. Acontece que com a construção do poço perderam essa oportunidade de conviver entre si e os homens deixaram de cuidar da lavoura, passando essa dura responsabilidade para as mulheres. Perante tal situação, não tinham outra alternativa que não fosse dar cabo daquele poço.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Curiosidades das Autárquicas 2008: A Rouquidão

Podem escolher que há para todos os gostos: à la Joe Cocker, Rod Stewart, Bruce Springsteen, Bryan Adams ou …Tina Turner. Estas autárquicas têm estado a produzir vozes roucas, independentemente do lugar ou da lista concorrente. Mas como a campanha tem feito estas eleições parecerem mais legislativas e presidenciais antecipadas do que qualquer outra coisa, líderes partidários não ficam de fora desta safra. Há casos em que não nem se chega a saber quem está a (tentar) falar, pois a depender da plataforma (!?!) eleitoral, fica complicado fazer distinções.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Curiosidades das Autárquicas 2008: Apelidos e Nomes

Do ponto de vista dos apelidos, entre os cabeças-de-lista para a Câmara Municipal quem domina são os Veigas: José António Veiga (Santa Catarina – Fogo); Eugénio Veiga (São Filipe – Fogo); José Gomes da Veiga (Ribeira Grande – Santiago) e José Manuel Veiga (Praia – Santiago). E para reforçar a equipa, nada mais justo do que Carlos…Veiga, pois tem-se desdobrado um pouco por todos os municípios a apoiar os seus apoiantes nas Presidenciais de 2011. Ainda em relação a apelidos, é de realçar o embate entre Tavares em Santa Catarina – Santiago.

No tocante a nomes, dominam os Antónios, Joãos e Josés, sendo que na lista destes últimos é mais do que legítimo incluir o José … Maria Neves, pelo tanto que se tem esforçado em apoiar os seus. Quanto a embates entre nomes, a coisa promete ser quente entre os Jorges na ilha do Sal .

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Mais Musica Minha no Djaroz

Depois de um período de interregno, eis que volto com mais música minha para dinamizar o blog. Escolhi três sons: Tom di Café, que é dedicado à minha querida irmã Matilde Dias; Pomba Branka, canção cujo tema é a paz; e por fim, Ta ser diferenti, uma música feita pensando no lema "Investir na Agricultura em Prol da Segurança Alimentar", que foi o lema do Dia Mundial da Alimentação de 2006 (16 de Outubro). A ideia central desta música é que se pudéssemos aproveitar melhor as águas que dispomos, tudo seria diferente em termos de desenvolvimento rural e do país, de uma forma geral.

Espero que gostem. Aviso que as músicas foram gravadas de forma crua, sem qualquer efeito ou montagem. Evidentemente que juntar-se-ão às outras músicas que já estavam aqui do lado direito.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

"Papá, Vota na F- - -"

Entre os dias 2 e 3 de Dezembro de 1994 teve lugar em Brasília (Brasil) o seminário “O Brasil e as Tendências Económicas e Políticas Contemporâneas”, realizado pela Fundação Alexandre Gusmão com apoio do PNUD e do BID, onde estiveram grandes figuras como Manuel Castells, Alain Touraine Francisco Weffort, Eric Hobsbawn e tantos outros. No painel “Novos parâmetros do Pensamento Político”, o Professor Phillippe Schmitter, renomado cientista político norte-americano, ao comentar a exposição feita pelo Professor Alain Touraine, fez uma proposta no mínimo invulgar: estender a cidadania política a todos os cidadãos desde o momento que nascem, ou seja, todas as crianças teriam direito a voto a partir do momento em que estivessem registadas. Obviamente, como não podem fazer escolhas, o seu direito ao voto seria delegado a um dos pais até que a criança alcançasse a idade que legalmente é permitido o exercício do direito de voto. O Professor Schmitter considera que isto teria algumas vantagens positivas, dentre as quais, permitir às gerações futuras a participação em decisões de hoje, mas que terão implicações futuras. Ele considera ainda que os delegados dos votos das crianças (os pais, em princípio) estarão mais sensibilizados para as questões de sustentabilidade de decisões políticas.

Bem, eu fiquei a imaginar o pandemónio que seria, caso essa proposta fosse posta em prática entre nós. A explosão demográfica seria vista pelos nossos políticos como algo positivo, sinal de fecundidade e de vitalidade. E para dar o exemplo, iriam multiplicar as mães di fidju pelos cutelos e ribeiras deste país. Muitos marmanjos seguir-lhes-iam as pegadas, mas o grande problema seria se cada mãe resolvesse reservar a si o direito de ser a delegada dos votos dos filhos. Já estou a ver a pilha de processos a correr nos tribunais para determinar se é o pai ou a mãe quem fica com o direito de votar por cada um dos filhos. Mas um outro problema surgiria quando a criança começasse a falar e a assistir a televisão. Provavelmente, muitas mamãs e papás teriam alguns dissabores quando os filhos começassem a exigir que o seu voto fosse atribuído ao partido oposto ou candidato de outra cor partidária. Imaginem se o filho ou a filha de um(a) candidato(a) resolvesse exigir ao seu pai ou à sua mãe para que votasse no(a) candidato(a) oposto(a).

De qualquer modo, penso que estes problemas não impediriam que o comércio eleitoral fosse um dos sectores mais dinâmicos da nossa economia, com ritmos de crescimento não negligenciáveis.

Convém também frisar uma inovação importante que seria o planeamento familiar eleitoral, ou seja, haveria lugar à gravidez planificada para a criança nascer no período de actualização do recenseamento. Mas a grande novidade ou vantagem desse sistema é que, de certeza, não teríamos mais o problema das crianças não registadas e não haveria mais a necessidade de passar aquela propaganda na RTP Africa …

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A Lei de Gerson: e não é que a Conhecemos?!



Depois do tricampeonato do Mundo de 1970 pela selecção brasileira, o jogador dessa Selecção, o Gerson, fez uma propaganda para a marca de cigarro “Vila Rica” na qual ele, a certa altura, diz “"O importante é levar vantagem em tudo, certo?". Essa ideia passou a ser conhecida a partir de então como a lei de Gerson, que se refere à ideia de levar vantagem em tudo, não interessando os meios (para mais detalhes sobre a origem do termo, ver este artigo da Revista Superinteressante) . Na verdade, se assemelha muito ao sentido pejorativo dado à perspectiva de Maquiavel resumida na frase “Os fins justificam os meios.”

Esta ideia de levantar vantagem em tudo também faz parte da nossa realidade, pois há uma fartura de exemplos que o evidenciam. Contudo, vou-me cingira dois ligados ao atendimento nos bancos comerciais.

Numa das agencias de um dos bancos comerciais, foram colocadas senhas para organizar o atendimento. Só que, às vezes, há alguns espertalhões (ou espertalhonas) que chegam e encontram algumas pessoas à espera. Às tantas, o pessoal do caixa chama um número e, se ninguém reage, o nosso espertalhão (ou espertalhona) faz de conta que é a sua vez e dirige-se para o caixa. Normalmente, os funcionários costumam estar tão absortos que se esquecem de conferir a senha. Resultado: a lei de Gerson funcionou.

Mas há um outro estratagema bastante criativo que me foi dado a conhecer: o espertalhão (ou a espertalhona), não tendo talvez o desplante de recorrer ao truque das senhas, dirige-se ao caixa e, enquanto o funcionário atende um cliente, ele (ou ela) queixa-se lamentando a morte de um familiar e a necessidade que tem de tratar rapidamente o assunto que lhe motivou a dirigir-se ao banco. É um truque que parece funcionar bem. O risco, no entanto, é se a pessoa que está a ser atendida naquele momento for da zona que o(a) espertelhão(ona) escolher como residencia do seu “morto”.

Pelas evidencias, a lei de Gerson não é uma exclusividade brasileira.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Cometa, Ontem…

Ontem, após ter assistido a uma partida disputada num ritmo estonteante entre o Arsenal e o Liverpool, em que este saiu-se melhor, para gáudio do meu amigo Edson Medina, que não conteve o grito quando Babel sentenciou a partida, tive a feliz oportunidade de passar no Cometa (para quem não sabe ou conhece, é um quase já legendário espaço da zona do Prédio em Achada Sto Antão), para encontrar uma galera (ou malta, se quiserem) bem disposta e brincalhona.Nisso me aparece ninguém menos do que o Miguel Barbosa, o Ziquizira, com quem já há muito não cruzava fora do quadro virtual da blogosfera. Para completar, ainda tive a felicidade de reencontrar o Pêpê, também colega e amigo de infancia, por estas bandas nestes dias. Como diria um bom tupiniquim, “é mole, ou quer mais?”

Na verdade, só faltou mesmo um violão. Aliás, são raros os espaços onde se pode ter acesso a um violão para criar animação, mas bem, mas isto são outros quinhentos. O facto é que gostei da noite de ontem no Cometa e não resisti a partilhar convosco alguns excertos dela.

Nhara Santiago .... ao VIVO!!!

Eu não podia deixar de dar esta força ao Nhonho. Sexta Feira, todos os caminhos vão dar à Várzea, mais concretamente ao Auditório para ouvir "Nhara Santiago". FORÇA NHONHO!!!

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Reencontro

O tempo de campanha eleitoral caracteriza-se também por vários tipos de reencontro.

É o reencontro de muitos políticos nossos com o palanque, onde nem todos se sentem à vontade, mas que por força do ofício têm de lá estar, nem que seja só para fazer figura de corpo presente (ou pelo menos levantar os braços para o ar quando o animador de campanha lê o seu nome constante nas listas do partido ou organização concorrente que representam).

É o reencontro dos políticos com as expressões mais baixas da língua materna…

É o reencontro do povo com as feijoadas, cimentos, verguinhas e “rondas” de grogue… de “borla” (!?!).

É o reencontro do povo com as promessas que sabem tão bem aos ouvidos, mas que muitas vezes ficam por isso mesmo.

É também, muitas vezes, o reencontro do povo com o mimo dos políticos, pois muitos destes passam o tempo entre as eleições com uma certa “alergia” ao que é popular.

De certeza, há muitos mais reencontros, mas fico por estes. Quem souber deles, esteja à vontade para expô-los nos Comentários.

segunda-feira, 31 de março de 2008

WWW.PARLAMENTO.CV

Penso que já é altura de se actualizar o site do Parlamento. Continua lá o Código Eleitoral de 1999, sabendo-se que desde Junho do ano passado já se tem um novo. Evidentemente que quem quiser consultar este novo código pode recorrer à pagina da dgape (www.dgape.cv), mas de qualquer modo, o site oficial do parlamento devia ter o Código Eleitoral devidamente actualizado, pois na sua mensagem de Boas Vindas aos utilizadores do Site, o Presidente da Casa não podia ser mais explícito: “A Assembleia Nacional é o órgão representativo de todos os cabo-verdianos e, por isso, faço votos de que a abertura e a boa utilização desta página sirvam para aproximar o cidadão do Parlamento e aumentar a qualidade da representação política que lhe cabe.” A desactualização também é evidente em sessões como a Composição da Mesa e Actividade Parlamentar.

Provavelmente o novo Site da Instituiçao deve estar na fila de espera do NOSI.Contudo, uma instituição como o Parlamento dum país com sistema parlamentar (seja ele mitigado, mastigado ou outra adjectivação qualquer...) devia estar entre os primeiros...

terça-feira, 18 de março de 2008

Coisas da Capital

Bagdad

Depois da Tchetchénia, agora é a vez de Bagdad. Assim se chama uma rua do bairro da Ponta d’Água, fruto de regulares situações de violência que por aí se verificam. Essa “moda” de dar nomes a certos bairros ou ruas parece passar a ideia de institucionalização da violência em certas comunidades, onde as autoridades de reposição da ordem são por vezes recebidas com hostilidade, gerando contra-reacções que por vezes acabam mal.

Mercado do Paiol

Tem passado sistematicamente o anúncio da conclusão do mercado do Paiol, um dos bairros mais antigos da Capital, e da solicitação às vendedeiras locais para se dirigirem para lá. Há uma fartura de exemplos de grande dificuldades, pelo menos na Praia, de convencer as vendedeiras a se instalarem nos mercados e abandonarem espaços impróprios, mas que para elas constituem pontos estratégicos. O pior é que o próprio consumidor, que devia ter um papel preponderante nessa mudança de consciência, não costuma colaborar, reforçando a tese das vendedeiras: “Nu ta bai pa mercado, és ta continua ta bem kumpra li”.

Inaugurações

No passado fim de semana foi uma correria nos 22 cantos do país para concluir e inaugurar obras. Diz-se até que em muitas partes era “um ta ká raboka, kel otu ta bem logo si trás pa pinta”

segunda-feira, 10 de março de 2008

O País Canguru

Sim, penso que somos! O nosso país acostumou-nos a saltos, com derrapagens e escorregadelas à mistura, é certo, mas temos vindo a saltar (quase sempre a subir, diria o primo do Zé Lovi, o Ku Duru.) Começámos pelos Índices de Desenvolvimento Humano, em que, aos pulinhos, fomos subindo a nossa marca, até conseguirmos o grande salto, o nosso maior recorde. E o novo desafio parece despontar no Horizonte: experimentar uma nova categoria, agora com a entrada na OMC, que é a melhoria da produtividade: será que vamos estabelecer boas marcas neste capítulo?

Se tal acontecesse, penso que estaríamos em condições de fazer bonito naquela Grande Competição de 2015. Espero que o Nelson Évora sirva de inspiração para que possamos fazer um grande triplo salto: UM...(maior crescimento económico com mais produção e melhor produtividade), DOIS...(mais desenvolvimento humano), TRÊS (Mais Famílias fora da Pobreza Absoluta) nos Jogos Olímpicos de 2015 organizados pelos ODM (Objectivos de Desenvolvimento do Milénio)!

Até lá.

quarta-feira, 5 de março de 2008

O Voto Inútil

Assim costuma ser comummente apelidado o voto atribuído a alguma agremiação política ou candidato que, a priori, não apresenta grandes chances de alcançar a vitoria eleitoral. Normalmente isto acontece em relação aos candidatos que não têm suporte partidário forte, mas que se costumam ver-se no meio dessa “briga de cachorro grande”. Nas situações em que há uma luta renhida pelos votos do eleitor entre os candidatos dos partidos mais fortes, uma das estratégias que estes usam é o apelo ao voto útil. É muito comum ouvir “Bu sta bá vota na kel kandidatu indeperdenti la??! Dja bu sabi ma ê ka tem xansi. KA BU STRAGA BU VOTU”

Um acto que deveria ser um exercício de cidadania é transformado em algo instrumental. Na verdade, o voto é um fim em si mesmo, isto é, independentemente do candidato ou da agremiação ganhar ou não, o facto de votar em consciência encerra já em si um valor, o da cidadania. Mas os defensores da política terra-terra, independentemente da cor política, acham que isto é conversa para boi hibernar e que o voto deve ser adjectivado sim, nem que para isso entrem pelo meio verguinhas, cimentos, garrafas de grogue, feijoadas, etc..

No entanto (ainda bem que assim é), este tipo de instrumentalização não é nem de perto nem de longe comparável, por exemplo, ao que deu origem àquela piada italiana de chamar a sigla do Partido Nacional Fascista – o PNF – de “Per Necessità Familiare”, numa clara alusão ao carácter clientelista do voto na Itália dos anos 20.

terça-feira, 4 de março de 2008

"Independentismo" Político – Decifrando Códigos

Com o aproximar de mais um pleito eleitoral, e por ser as autárquicas, começam a despontar alguns grupos de cidadãos dispostos a constituir lista e concorrer em alguns pontos do país sob o rótulo de independentes.

É também muito comum também ouvir cidadãos que se auto denominam de independentes, pela simples razão de não serem militantes de nenhum partido, isto é, ser independente para eles é ter ligação efectiva a um partido político (ter cartão de militante), independentemente (passe a expressão) da ligação afectiva a uma organização com esse cariz.

As ambiguidades em torno desta noção, pelo menos do ponto de vista político-partidário, criaram uma certa desconfiança em relação aos que se consideram na condição de não pertença efectiva a um partido político, havendo por vezes certas reacções sarcásticas ou irónicas, como é o caso de um candidato independente às autárquicas de Maio próximo que foi taxado de “candidato Mpendente”. Mas também não é para menos, há vários casos de grupos que se denominam independentes, mas que na prática têm uma ligação indisfarçável com alguma força partidária.

Algumas variantes que ganharam independência em relação á mãe “Independente”, começam a despontar, pelo que merecem alguma descodificação: os In...Dependentes, ou seja, os que dependem de estar... In, estar dentro do sistema e abocanhar as oportunidades, tendo mais mérito via connection do que via outras habilidades, e que para tal passam um tempo na sombra à espera da poeira assentar; os Pendentes, isto é, os que pendem para onde a probabilidade de estar In se apresentar maior.

Mas há um grupo especial que não desarma e que insiste em não ter ligação – nem afectiva nem afectiva – com partido algum e que não se importa em acumular derrotas eleitorais, fazendo da participação nas eleições autárquicas um exercício e um compromisso cívicos, é o dos INDEPERDENTES. Não pendem para lado nenhum... perdem em todo o lado...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Curiosidades Etimológicas

Esbarrei na página repleta de curiosidades etimológicas mantida pelo Prof Cláudio Moreno (brasileiro), e não resisto a partilhar convosco algumas que achei particularmente interessantes:

Palavra “Trabalho” (esta deve interessar especialmente à Mnininha d’Soncent) – Conheçam aqui a origem muito curiosa desta palavra.

A origem do termo “Testemunha” – vale a pena conferir, até porque o texto do Prof Carlos Moreno tem uma boa dose de humor. Leiam aqui.

Palavra “Canguru” – esta é muito interessante, pois trata-se de uma falsa etimologia. Confiram aqui

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Já começou!

Já começou! A partir de agora, o pessoal da comunicação social e o dos tribunais, aqueles mais precavidos, já devem estar a preparar-se para a maratona que já bate às portas: já os vejo a levantar ao nascer do sol para aquele indispensável cooper.

Para os profissionais dos Mass Media é o corre corre atrás das paradas e respostas via Conferência de Imprensa protagonizadas pelos partidos políticos nos 22 cantos do país: num dia é a oposição a apresentar as estatísticas de distribuição de cimento, “verguinha” ou terreno; noutro são os responsáveis camarários ou os dirigentes locais do partido da situação a desvalorizar as críticas e a desfilar o rol interminável de realizações.

Já os profissionais dos Tribunais vão se ver a braços (é bom que estejam bem fortes e musculados) com as ilustres impugnações, sem falar ainda nas já habituais queixas-crime por injúria, calúnia e/ou difamação. Convém lembrar que desta feita há um prato cheio, e a ponto de transbordar, que é o processo de recenseamento geral.

Haja pernas e braços!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Djarfogu

Gostei de ter voltado a por os pés na ilha do Fogo. No entanto, a primeira impressão que tive ao chegar é que a ilha clama por um Aeroporto com mais dignidade e que é preciso ir para além de acções paliativas de remendar aqui e ali.

Mudando de assunto, desta vez pude conhecer zonas onde nunca tinha estado – Lomba, Ponta Verde, Curral Grande e São Lourenço, etc, e pude também finalmente conhecer o Concelho dos Mosteiros, onde, à semelhança de muitas partes do país, as forças partidárias já começaram as suas movimentações.

Em São Filipe, tive a ocasião de reencontrar o Michel, um artista nato da ilha com um futuro promissor. Dos lugares que entraram na música Bila, só a "Maria Amélia" é que não resistiu, Caleron e Tropical continuam firmes e fortes. Além deles, pude explorar um pouco mais outros points, mas de Santa Filomena.

Em Chã das Caldeiras, passagem obrigatória, dei uma passada no Bar do Sr Ramiro para tocar violão e otras cositas más (se é que vocês me entendem).

Enfim, passei a conhecer um pouco melhor a ilha dos meus pais, embora o carácter intensivo da missão não tenha permitido explorar devidamente todo o bom do Djarfogu.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Os “Fora-da-Lei” “Bregas” da Capital

Vivem em casas (ou quartos-casa) feitas da noite para o dia, em terrenos ocupados ilegalmente; têm luz eléctrica sem nunca terem os postos os pés nas instalações da Electra; muitos desenvolvem actividades económicas informais em locais não permitidos, desafiando muitas vezes as autoridades; alguns chegam também a participar em actividades ilícitas como a venda de estupefacientes.

Ao que tudo indica, estes fora-da-lei das zonas cinzentas da Praia não são nada mais do que os filhos indesejáveis do Estado. Por um lado, foram gerados pelo fracasso das medidas paliativas que as autoridades públicas centrais e locais tem desenvolvido ao longo dos anos para as situações de emergência em decorrência de maus anos agrícolas, particularmente, os trabalhos públicos desenquadrados de estratégias coerentes de redução estrutural da pobreza. Por outro lado, são fruto de um modelo de descentralização baseado na transferência de competências, mas não acompanhada de uma de recursos condizente.

E agora o papai Estado mostra-lhes (ou é obrigado a mostrar-lhes) a sua cara feia: o Piquete.

Bem, quanto aos “fora-da-lei” Chics, prefiro não tecer comentários...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Música Minha no Djaroz: "Nos Saboris"

E após a recuperação da turbilhonite aguda, nada melhor do que música para descontrair. Cumprindo parte da promessa feita aos meus amigos, especialmente o Nhonhas e o Djassy, e para agrado da minha irmã Matilde, aproveito para deixar-vos uma música minha, Nos Saboris, na qual retrato a diversidade dos nossos comes e bebes, pois neles repousa muito da nossa caboverdianidade.

Não me importei de colocar sem qualquer modificação a gravação feita há dias na casa do meu amigo Francisco Heleno, a quem agradeço pelo registo sonoro. Espero que saboreiem esta música, que aqui deixo a todos os que passam pelo Djaroz. Naturalmente, a música vai ficar na lista das Minhas Músicas aqui do lado.

NOS SABORIS (para ouvir, clique aqui)


Ah, ti farta-m kel katxupa

preparadu mó ta manda tradison

ah, ti fuska-m kel grogu

kana kana ki ta bem la di Santanton

ah, ti txiga-m kel djagasida

ku um kudjer di mantega terra,

oh terra, ki n-kre txeu

ki n-t’ama txeu,

txeu di más

kel dosi koku ki nu ta kustuma txoma di asukrinha

kel dosi papaia ku keju ki ta tra-m agu na boka

di palmanhan ó ki n-labanta nha leti ta pidi kamoka

diretamenti di Sonsenti um suavi y dosi bolaxinha

ah, ti sta-m bom, sopa rolon

ku kel gostu spesial di kabesa pexi

ah, ta mata-n atxa totoku

ku kabesa kambadu dentu kaldu pexi

ah, ti n-doga-m, dosi di azedinha

ku um pontinha di kanela,

ah, panela ku kel txeru

di kabidela, oh kabidela

kel dosi koku ki nu ta kustuma txoma di asukrinha

kel dosi papaia ku keju ki ta tra-m agu na boka

di palmanhan ó ki n-labanta nha leti ta pidi kamoka

diretamenti di Sonsenti um suavi y dosi bolaxinha

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Temas Melindrosos ou Sensíveis

Ainda sofrendo de turbilhonite aguda, veio-me à tola este post essencialmente voltado para os comentários. Fui tirar nacos à ideia original de Perguntas cafeanas do João Branco e dos Polls que ele e outros costumam realizar aqui na CVBlogosfera.

A pergunta é : qual é o tema mais melindroso e/ou sensível abordado na blogosfera nacional:

a) O problema de identidade: somos mais europeus do que africanos ou vice-versa? Ou esta distinção é disparatada?

b) A destrinça Badius e Sampadjudus: continua a fazer sentido hoje em dia ou é coisa do passado?

c) A política (os partidos políticos; o governo; o parlamento; a justiça e as câmaras municipais). O "grande salto" é mérito de quem, afinal?

d) 5 de Julho ou 13 de Janeiro? Faz sentido comparar estas datas?

e) Amílcar Cabral: ele continua a ser importante?

f) Para nós, o caboverdiano (vulgo kriolu) é mais importante do que a língua portuguesa?

Digam da vossa justiça.

Frase

"(...) Um Cabo Verde outro e melhor existiria se uma parte significativa dos habitantes de cada ilha pudesse conhecer suficientemente os lugares e as gentes das restantes. Éramos mais cultos, mais cabo-verdianos e mais patriotas. Era o particular e o todo numa só pessoa". (Kaká Barboza)

in: (Son di Virason)

(foto: luzkarbarboza.blogspot.com)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Mas Afinal, Quem é "Badio"?

Porque é preciso de quando em vez turbilhonar, aproveito a onda gerada à volta do Badio, a começar pelo Badyo de Mário Lúcio, passando pelo Post sobre o Badiu di Fora da Margarida e a fechar com o texto do Pedro Moreira, no qual ele escancara o que lhe vai na mente sobre a relação entre Badius e Sampadjudus, para colocar algumas questões para uma reflexão blogosferiana.

Antes de mais, gostaria de deixar claro que, embora natural de Angola (por isso alguns desagradavelmente apelidam-me de Txitxarinhu), me sinto um cabo-verdiano da ilha de Santiago, mais concretamente da Cidade da Praia, onde está toda a minha vivência, sem abrir mão, no entanto, dos valores passados pelas minhas gentes da ilha do Fogo. Além disso, faço de tudo para me sentir em casa em qualquer das nossas ilhas. É por essas e outras que prefiro não me identificar nem como badio nem como sampadjudo. Mas as pessoas tem-me feito experimentar os dois lados da moeda: no interior de Santiago, e por vezes também na Praia, sou sampadjudo; em São Vicente e Santo Antão, as pessoas, ao me ouvirem falar aquela mistura das variantes de Fogo e de Santiago que dificilmente conseguem discernir, taxam-me de badio. O mais curioso ainda é que, na ilha do Fogo, as pessoas tratam-me por “Rapás di Praia”. E isto não me incomoda, desde que a motivação não seja depreciativa.

À primeira, parece que o conceito de Badio é um dado adquirido, tanto é que o Pedro Moreira, por estar tão certo do que ele fala, nem se dá ao trabalho de explicar a que badio ele se refere : se é o badiu di fora “da” Margarida ou se é outro. Posso estar enganado, mas decerto que não se trata do do Mário Lúcio, que é uma versão mais histórico-filosófica do que outra coisa, bem longe da reprodução de vivências do quotidiano que reflecte o Texto do Pedro Moreira.

No entanto, gostaria de colocar algumas questões:

a) Antes de mais, ser badio é pertencer a alguma ilha de Sotavento e expressar-se em alguma variante sotaventista da Língua Caboverdiana? Quando as pessoas de Barlavento identificam-me como badio, fazem-no porque para eles tanto faz ser do Fogo ou de Santiago?

b) Se não, ser badio seria então simplesmente ser um natural da Ilha de Santiago, mesmo que os pais ( ou algum dos dois) sejam de outra ilha? Ou então, se não for natural, pelo menos ter feito toda a sua formação pessoal e social nessa ilha?

c) Ou ser badio será simplesmente uma questão de atitude, caracterizada por uma assumpção da variante do crioulo e um bater a mão no peito dizendo “ami ê badio”, independentemente do tempo que se tenha estado na ilha de Santiago ou da naturalidade dos pais? Ou para além disso, era ainda preciso haver um reconhecimento da legitimidade por parte dos que se consideram badios, para se adquirir esse estatuto?

Como se vê, há muitas questões à volta desse conceito. Esclarecê-las talvez fosse um importante diapasão para a torre de babel que parece ser a noção de Badio.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Ribeira Grande: Na Minha Bagagem


Nas narinas
, o cheiro de ainda cana no copo.

Na boca, o gosto do coentro no Nic Nec, e que também esverdeia a sopa do "5 de Julho"

Nos ouvidos, ó ou é em vez do á na variante local do Caboverdiano; ou então a negação, de tão fechada que chega a confundir muitos de nós sulistas

Na pele, o friozinho húmido e silencioso das zonas altas.

Nos olhos, o verde dos pinheiros e eucaliptos

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Dos Preparativos do Debate “Virtual” sobre o Estado da Nação Blogueira

Já passam das oito da manhã de Segunda Feira e há muita gente atrasada, e Lay Lobo, um dos membros da organização, reclama, pois é que, exceptuando Mnininha d’Soncent que já tinha anunciado a sua chegada com um relativo atraso e em retalhos, o resto do pessoal prometera a sua presença a horas. Es debi sta la na Jonh White ta bebi um café margós, di gozo – diz o Presidente da Ala Marginal. O Baluka Brazão, outro membro da organização, com os seus botões: "minis k'á ta sumara tempo".

Da ordem do dia constam temas quentes:

a) Praia: lixo e insegurança, proposto entusiasticamente por Pedrabika, com o apoio expresso do Ziquizira. Gentes De olho na Praia e interessada em ver Outra Praia prometem participar activamente no debate. No entanto, no período antes da ordem do dia, será prestada uma homenagem póstuma ao Lantuna, durante a qual o Albatrozberdiano recitará em conformidade, tendo como música de fundo um Son di Santiagu;
b) utilização do K e a ausênsia do no Krioulo (ou Kaboverdiano, komo keiram), kom os pontos frakos e fortes do Alupek a estarem em sima da mesa.

Os repórteres do Jornal da Hiena estão já a postos para registar os Momentos do Dia que Passa, e que não contará com a presença do Kizó Oliveira, que já tinha anunciado não tomar parte nesta sessão apelidada por ele de “mérdia”.

Não faltarão representações locais, internacionais, das minorias e da classe feminina. Zemas (Tarrafal de Santiago); Pontxa Patxe Parloa (São Nicolau); Benvindo Sinta10 (Santo Antão) e Soncent prometem levantar a voz a favor do reforço da descentralização virtual. Por sua vez, Zé Lino será o interlocutor das preocupações dos Ciganos. A mulher cabo-verdiana far-se-á ouvir por mais igualdade na diferença com a Amante da Rosa, que prometeu perfumar a sala; a Vdmaktub; a Cena Kritika e a Sopafla. De terras lusas viajaram Paló e Digreja

Quando todo o mundo sair do encontro, levará certamente consigo um bilhete do espectáculo “Son di Virason” do Kaká Barbosa e um convite para tomar parte em mais uma caminhada promovida pelo Paulino Dias.

Ah… ia me esquecendo!!! Na galeria estarão olhares anónimos, dentre os quais os do Da Caps, que promete incomplacência para com pseudismos.


(Sob o efeito de “Da kel bom d'Sintonton”, Ribeira Grande (puvuossom), 29-01-2008.)

Praia: da Pluriculturalidade à multi/interculturalidade

Sinto saudades assim que ponho os pés fora da Praia, mesmo que seja ao interior da Ilha de Santiago. Parafraseando Tony Lima (Kaoguiamo), Praia krê ê ka limpu (para os mais maldosos: limpo, mas no sentido ligado à bruxaria) . Mas do que é que tenho eu saudades para além, como é óbvio, dos meus mais próximos?

César Schofield, ao comentar para o telejornal da TCV a sua mais recente exposição, mencionou que, apesar do carácter feio da estrutura física da cidade, esta é no entanto bonita do ponto de vista da diversidade cultural, havendo gentes e comunidades oriundas de diversas paragens, nacionais e internacionais. É disto que sinto saudades: a pluralidade cultural da Praia, onde estão comunidades de todas as outras da ilhas e do interior da ilha de Santiago; dos africanos continentais e/ou lusófonos; dos latino-americanos; dos asiáticos; dos europeus…

Devo, no entanto, admitir que, independentemente de ter os pés dentro ou fora da Capital, sinto mais saudades ainda de uma Praia multi/intercultural. É que apesar da diversidade cultural, não parece haver uma interacção ou interpenetração dessa plêiade de culturas e de especificidades locais e regionais. Muitas não se conhecem ou não se reconhecem.

Eu imagino uma Praia onde cada mês é dedicado a actividades relacionadas a uma dessas comunidades (por exemplo, mês da ilha do Maio, da ilha de Santiago, da comunidade asiática ou oeste-africana ,etc, etc), período ao longo do qual as autoridades centrais ou locais, por um lado, promovem actividades que retratam as gentes dessas comunidades e suas especifidades culturais e, por um outro, estimulam o sector privado a fazer o mesmo: restaurantes a realizarem noites culturais dedicadas à comunidade do mês com pratos típicos e música local; rádios privadas a difundirem programas respeitantes à comunidade do mês, etc.

A meu ver, isto iria certamente diminuir as tensões sociais e o sentimento de exclusão sócio-cultural que possam existir e redinamizar (ou “revolucionar” até) a vida sócio-cultural da cidade.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

"All Excluded"

Sempre que o assunto é inclusão ou exclusão, seja ela económica, política, social ou cultural, recordo-me da fantasiosa versão da origem do Forró - denominação do género musical originário da região Norte-Nordeste do Brasil cujo ritmo frenético constitui a característica mais marcante - segundo a qual esse termo deriva do inglês “For All” (para todos), que era o nome dado a bailes realizados por soldados americanos baseados na Cidade de Natal (Estado do Rio Grande do Norte), na época da IIª Guerra Mundial. Conta-se que, apesar do nome “For All”, aqueles bailes eram interditos aos locais, pelo que estes, em contrapartida, resolvem fazer também o seu Forró.

Baluka Brazão, no seu post sobre o Turismo Barato na Ilha do Sal, fez uma breve análise do impacto negativo da modalidade “All Included”, praticada por estabelecimentos turísticos da ilha, na vida das comunidades locais. O caso do Sal aplica-se também ao da Boa Vista, onde cada vez mais as populações locais parecem estar excluídas dos “ganhos” do nosso modelo de desenvolvimento turístico. Há dias, a correspondente local do interessante programa “Pulsar Informativo” da RCV disse que há alguma frustração por parte dos locais que pensavam que a abertura do Aeroporto Internacional iria dinamizar a vida micro-económica da ilha, mas que, afinal de contas, muito por culpa do All Included, não tem sido assim. Por um lado, enquanto consumidores, além de se verem a braços com um custo de vida cada vez mais elevado, às vezes, os locais nem sequer chegam a ter acesso a determinados produtos, como é o caso dos peixes que costumam faltar porque o que existe (capturado ou desembarcado) é quase que totalmente direccionado para os hotéis. Por outro lado, enquanto produtores de bens e prestadores de serviços, os mesmos têm cada vez menos oportunidades de gerar rendimentos porque já está tudo incluído.

A continuar assim, só restará a essas populações esperar que os nem sempre evidentes ganhos a nível macro do turismo sol-e-praia sejam distribuídos de forma equitativa pelo Estado e que não sirvam para reforçar as desigualdades e disparidades locais e regionais.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Tudo em Casa

Duas coisas motivaram-me a fazer este post: em primeiro lugar, a curiosidade dos álbuns do Zeca e do Zézé di Nha Reinalda (Na Caminhu e Dokumentu, respectivamente) – tios – e do Vadú (Dixi Rubera) – sobrinho- terem sido lançados um atrás do outro, prova mais do que suficiente da vitalidade da veia artística desta família. Em segundo lugar, o facto destes álbuns, até onde eu sei, não terem sido alvo de apreciação na nossa blogosfera.

Na CaminhoZeca di Nha Reinalda

Já não era sem tempo! Isto é o que me apetece dizer sobre este trabalho do Zeca, pois este colosso da música nacional, que esteve recentemente entre a vida e a morte, brinda-nos com um álbum mais maduro, não virado somente para o puro entretenimento, como é caso dos seus anteriores trabalhos a solo. Por outras palavras, ele largou o mundo da vertente electrónica e voltou ao do electro-acústico, reunindo músicas com forma e conteúdo, do próprio e de outros compositores, a saber, Tey Barbosa, Katchás, Ney Fernandes, Zekinha Magra, Djinho Barbosa, Tony Rasta e Codé di Dona. O que me chamou particular atenção foi o número bastante significativo de Versões lentas do Funaná, o que a meu ver contribui para mudar um pouco aquela ideia de associar este género musical à dança ou ao puro entretenimento, ou se quiserem, à pura barulhada.

DokumentuZézé di Nha Reinalda

Quem bem me conhece, sabe o quanto eu aprecio o Zezé di Nha Reinalda. Por acaso, eu já tive a oportunidade de colocar aqui no Djaroz, uma interpretação minha do Teris ê ka Pexi, uma composição do Zezé, que o mesmo interpretou no Álbum Onti y Oji (1988). Ao ouvir alguns temas do Dokumentu, voltei a sentir saudades do Zezé dos Anos 80.

Curiosamente, ele resolveu abraçar o mundo da música electrónica justamente no momento que seu irmão, o Zeca, resolveu fazer o inverso. Penso que terá sido uma opção arriscada, pois já ouvi vários admiradores deste compositor comentar que prefeririam ver o Zezé electroacústico a que estão acostumados. Eu, particularmente, não tenho nada contra essa opção, no entanto, nas faixas que tive oportunidade de apreciar, considero que o Zezé - que tem provas dadas de que sabe cantar, contrariamente ao que muitos dizem injustamente por não gostarem do seu timbre de voz – manifesta um excesso de zelo em ornamentar as melodias e arriscando muito em variações de altura da voz.

Uma outra consideração é sobre as letras. Lembro-me de certa vez ouvir alguém dizer que as composições do Blik Txutxi não são arte, mas sim desabafos. Parece-me, e quero estar errado, que o Zezé tem estado sob um efeito negativo de ressentimentos, o que estampa um carácter sombrio às suas criações mais recentes.

De todo o modo, como reza aquele ditado Guineense, o erro não invalida o esforço desenvolvido. Espero, no entanto, estarmos errados - eu e outros apreciadores das criações do Zezé - nas nossas considerações e mudarmos de opinião ao acostumarmo-nos com o Dokumentu, sucedendo o mesmo que em relação ao Guentis d’Azágua que, conforme o Zezé disse ao Jornal A Semana (edição de 11 de Janeiro último), tivera também uma recepção pouco calorosa nos primeiros tempos do seu lançamento, mas que depois acabou por se tornar no sucesso que todos nós sabemos. Oxalá assim seja.

Dixi Rubera – Vadú

O Dixi Rubera é um álbum ousado, uma vez que há quase um rompimento com a linha de arranjos do anterior trabalho, tendo o Hernâni Almeida, com a mestria que lhe é peculiar, ido buscar ao Rock N’Roll e ao Blues elementos para vernizar as composições terra terra do Vadú, estas sim, sempre naquela linha de resgate de vivências rurais e rurbanas.

Este é também um álbum para ouvir com calma, e ainda bem que é assim, pois não se trata de um descartável, e com prazo de validade. Constitui uma oportunidade entender nesta obra a forma descomplexada como o Hernâni, o Vadú, o Mikau e a expertise sonora do Zunga deram corpo a criações que rompem amarras de tradicionalismos convencionais e abraçam a universalidade (e não globanalização!) do som.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Como Vejo Cabral Hoje

Eu pretendia abrir esta rubrica “datas” na semana passada com o 13 de Janeiro. Mas como fui antecipado pelo Post “politicamente incorrecto” do Abraão Vicente, que, igual a si próprio, atirou para tudo quanto é lado, preferi navegar em águas menos turbulentas do 20 de Janeiro.

Por ocasião de mais um aniversário da morte de Amílcar Cabral, gostaria de discorrer sobre esta figura ímpar da nossa história. Passados 35 anos do seu assassinato, ele continua a merecer a atenção de estudiosos, analistas, dirigentes e intelectuais preocupados em esmiuçar ou aprofundar o já vasto manancial de informações sobre a sua vida e seus feitos. Este post sobre Cabral gira em torno da seguinte questão: O que podemos aprender do exemplo de Cabral nos dias que correm?

Sem vestir farda pré-pronta de militarismo algum, para mim, e penso que para muitos, Cabral é e continuará a ser um exemplo de luta por um ideal de libertação. É bom lembrar que Cabral, quando jovem, pese embora o regime de então, tinha acesso a oportunidades, tanto é que conseguiu - com algum sacrifício é certo – estudar e seguir para Portugal a fim de prosseguir os seus estudos e alcançar uma formação superior. Ele poderia, entretanto, ter permanecido tranquilo no seu canto e usufruído das oportunidades que tinha dentro do regime em vigor naquela época. Mas não. Movido pela sua consciência cívica, desenvolveu uma estratégia de transformação do mundo que o circundava e que, segundo ele e os demais que abraçaram aquela causa, era a mais eficiente e eficaz para a época. O uso da cultura para gerar uma força colectiva grande, sob o signo da unidade nacional, e encarar os sacrifícios da luta armada teve um contributo inestimável para o processo da Independência da Cabo Verde e da Guiné Bissau.

Portanto, numa altura em que parecemos viver uma crise de consciência cívica, é bom sempre lembrar o exemplo dado por Cabral. Se nós, os que têm acesso a mais e melhores oportunidades criadas pelo crescimento económico, fecharmo-nos nos nossos bunkers e mantivermos a nossa apatia cívica ante as desigualdades e exclusões geradas por esse mesmo crescimento, a violência e a sensação de insegurança continuarão a fazer primeiras páginas dos nossos jornais.

Palmas: Tarrafal de Santiago

Segundo as autoridades, não houve registo de ocorrências policiais e ninguém que participou nas festividades de Nhu Santo Amaro deu entrada nas instalações sanitárias daquele concelho em decorrência de actos de violência. Quem dera que fosse sempre assim em todos os eventos do género realizados em outros pontos do território nacional.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ao Kaká Barboza: Em Jeito de Apreciação-Reacção... (a Post..Eriori...)

Caro Kaká,

Preparava eu, na tarde noite de ontem, para escrever um Post em uma espécie de apreciação-reacção ao teu bilhete quando, de repente, a Electra .... (o resto já sabes). Sendo assim, resolvi ligar a rádio do telemóvel e sintonizar a Rádio Nacional (RCV). Durante quase duas horas, ouvi músicas de qualidade, nossas e dos outros, a maior parte em formato electro-acústico. Pus-me a pensar: talvez eu tenha tido a sorte de testemunhar um momento raro ou então isto aconteceu porque, como justificarias, era de noitinha. Mas também pus a mim mesmo a questão: será que estou desactualizado e não percebi que a Rádio Nacional está a disponibilizar mais espaço para as músicas feitas por nós, e pelos outros, em formato electro-acústico (as mornas, a maior parte das coladeiras, um número razoável de funanás e batucos, “Dor” do Gil Semedo, o último CD do Gylito, alguns sembas, marrabentas, gumbés, etc,etc), depois que apareceu a versão Teen, a RCV+?

Sabes, Kaká, eu até entendo que as rádios comerciais sejam espaços onde os DJs aproveitam para mostrar que fazem melhor mixagem que os DJs da Concorrência e assim garantirem não só maior audiência na sua rádio, mas também mais biscates nas discotecas, afinal de contas, esta é a lógica deste tipo de mercado. Compreendo também que os DJs acreditem que o são só por saberem manejar os softwares e hardwares de mixagem e que, em termos de música, pensem que o importante mesmo é o Beat (ou a batida), pois falta-lhes alguma orientação mais aprofundada em harmonização.

No entanto, já se tratando da Rádio Nacional, que sempre teve, até onde eu sei, Técnicos de Som e não DJs, eu sempre espero algo mais, isto é, mais diversidade, mais “democracia” musical, mais equilíbrio entre o electro-acústico e o electrónico. Prometo-te que vou estar atento nestes dias à Rádio de Todos Nós para ver se dissipo estas dúvidas criadas pela noite escura de ontem.

Um Abraço.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

“BRUMA SECA” E A AVENTURA SANTANTONENSE


Bruma Seca: Ulysses, Arlindo, Tey, Eu e o Nhelas


Já vai completar um ano que o Bruma Seca - assim entendeu Tey Barbosa chamar àquele agrupamento musical de circunstância - passou dias inesquecíveis por terras santantonenses. A convite da Câmara Municipal da Ribeira Grande, por intermédio do Arlindo (na foto), tocámos no Polivalente da Ponta do Sol, por ocasião das festividades do dia daquele Município (17 de Janeiro). A princípio, devíamos servir de grupo suporte ao Tcheka, mas como ele acabou por não viajar, assumimos as rédeas da situação. Tivemos também a oportunidade de apresentar algumas músicas num jantar oferecido pela Câmara Municipal na localidade de Ribeirão.

Mas o mais excitante da nossa estada ficou por conta dos momentos que vivemos em Ribeira da Torre, especialmente, com aquele cóld d’peixe no Tanque de Boca d’Fund e o concerto improvisado no Bar do Boi, que este achou por bem registar em CD e enviar-nos posteriormente.

De facto, nas crónicas sobre a sua Terra Natal, Paulino Dias não exagera ao referir-se à beleza da paisagem local, mas também, e em especial, à das suas gentes.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Palmas para o Stieve Andrade e seu Programa!

Foto: sondisantiagu.blogspot.com

Esta segunda edição da rubrica “Palmas” (que resolvi criar de uma hora para a outra) vai para o Stieve Andrade e seu Programa “Secção da Música” (na Rádio Comercial, aos sábados, às 10 da manhã).

Este invisual, que de cego não tem nada, tem proporcionado a vários artistas, principalmente os músicos, a possibilidade de promoverem o seu trabalho. Constitui igualmente uma oportunidade para os ouvintes estarem a par das novidades da nossa música, especialmente as feitas no formato electro-acústico.

Evidentemente, que se pode criticar a permeabilidade do programa, cujo único afunilamento (que chega a ser suave) parece residir nesse contraponto entre o electro-acústico e o electrónico . Mas eu penso que é justamente isso que constitui o sal do Programa: os artistas sentem-se à vontade porque sabem que vão para lá não para estar sob o crivo da crítica voraz, mas sim para promover o seu trabalho. Este facto acaba por fazer com que os artistas se sintam à vontade até para expor partes dos bastidores e dar-nos a conhecer elementos humanos, humanistas, ou humanizantes que concorreram para a feitura da sua obra.

Entretanto, o Stieve está magoado. No passado dia 8 de Dezembro, por altura do 6º aniversário do Programa, ele viu gorada a ideia de organizar algumas actividades de comemoração, devido à quase total indisponibilidade dos artistas (especialmente, os músicos) que, no entanto, já tiveram a oportunidade de promover seu trabalho no programa.

Lembro-me dele ter abertamente manifestado, naquela edição do Programa, a sua decepção com a classe artística nacional residente, especialmente os que ele tinha abordado. Nem mesmo o facto do Dany Spinola e do Tó Alves terem ido lá, assim como o Djinho Barbosa (este para encerrar a edição daquele dia) e do Mário Lúcio ter telefonado, prontificando-se a oferecer dez exemplares do Badyo para o Stieve oferecer aos ouvintes do programa, chegou para sanar a dor que lhe ia (e ainda lhe vai!) na alma.

Confesso que eu, mesmo não tendo sido visado directamente, senti-me envergonhado por essa postura nada dignificante dos que foram abordados e se mostraram indisponíveis, sem terem, todavia, apresentado uma justificação suficientemente convincente.

De qualquer modo, acredito que este momento triste não vai frenar o entusiasmo e a motivação com que todos os sábados ele conduz o seu programa.

Força Stieve!!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Proposta nº4 : Uma Divisão Diferente para a Música Feita por Nós

A divisão mais comum para os diversos estilos de música, nossos ou não, em cima dos quais produzimos, opõe o grupo do tradicional, constituído pelos nossos géneros musicais, ao do comercial, constituído pelo Zouk Love, Kuduru, Ragga, Soukouss, Rabadop, Rap, etc.

O primeiro problema dessa divisão prende-se com a noção de comercial. Será que o carácter comercial não se encontra em todos os estilos, sejam eles tradicionais ou não? Evidentemente, que se pode argumentar que os estilos como o Zouk Love ou o Kuduru são de consumo rápido e que não têm nenhum outro carácter que não o do puro entretenimento. Mas penso que isto não é suficiente para o separar das águas. É bom lembrar que as carreiras de artistas como Tcheka, Cesária Évora ou Mayra Andrade são conduzidos sob uma óptica comercial muito forte, o que acaba por reflectir-se nos álbuns produzidos (Tcheka a ser produzido por Lenine; Cesária Évora a cantar em Espanhol; Mayra a cantar em francês, etc, etc). Tudo isto é comercial, também!

Um segundo aspecto tem a ver com a definição de tradicional. Quando se houve um Tó Alves, Dudu Araújo ou Bius não se tem dúvida que se está perante algo tradicional, naquela acepção da palavra ligada ao que é nosso, isto é, sente-se uma presença forte de elementos genuínos de géneros musicais nossos, independentemente de haver aqui e ali alguns elementos de outras paragens. Mas o que faz o Tcheka é mesmo batuco? As músicas do Dany Silva ou do Vlú devem ser rotuladas de tradicional? O que são aquelas composições de Renato Cardoso interpretadas pelos Tubarões? Enfim, poder-se-ia desfilar ainda enésimos exemplos de canções ou de artistas que criam grandes dificuldades de enquadramento na clássica divisão entre tradicional e comercial.

A mim me parece que poder-se-ia resolver boa parte destes problemas se, ao invés da divisão tradicional-comercial, fosse feita uma outra, com base no formato (não estou a ver outro termo) da execução ou da produção, isto é, numa divisão entre Música electro-acústica e Música electrónica.

A música electro-acústica englobaria todos os estilos e géneros musicais (genuinamente nossos ou não) executados por instrumentos eléctricos, acústicos ou electro-acústicos. Por outras palavras, músicas em que o som de guitarra é mesmo de guitarra e não de teclado; o som do saxofone é mesmo de saxofone e não de teclado. Alguém deve estar a perguntar se não haverá Zouks que possam se enquadrar aqui também . Evidentemente. O “I’m a Professional” do Orlando Pantera é um deles.

Quanto à música electrónica, teríamos as feitas normalmente por um teclado profissional ou por um software musical através do Sistema MIDI, complementado por captações de Áudio nos estúdios de gravação; com efeitos para tudo quanto é lado e com adaptações e “correcções” para que tudo saia na perfeição. Os instrumentos acústicos aí não têm vez nem voz (aquele barulhinho da guitarra nylon aí não passa!!!) e os eléctricos podem até ter espaço, mas muito reduzido. Na verdade, o teclado trata de fazer (bem ou mal) tudo o que os outros instrumentos fazem. Muitas coladeiras que ouvimos hoje passariam, de certeza, a fazer parte deste grupo.

A divisão vista nesta perspectiva permite até corrigir algumas análises e julgamentos injustos para com algumas produções. Por exemplo, albuns como “Unidade e Amor” dos Rabelados, “Rapazis Nobus” dos Livity, os primeiros álbuns a solo do Grace Évora e do Splash, que não são estilos genuinamente tradicionais nossos, mas que têm uma componente humana muito forte traduzida na execução dos instrumentos, contrariamente ao Cabo Zouk Love que hoje conhecemos.

Enfim, penso que a nossa maior luta não é contra a estrangeirização dos nossos géneros musicais, mas sim contra a desumanização da produção musical e a consequente minagem da acção colectiva no domínio da criação e execução musicais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Curiosidades da "Superinteressante"

Passei uma vista de olhos por algumas edições da “Superinteressante” (revista brasileira de curiosidades), que de resto tem um link aqui do lado direito, e encontrei algumas preciosidades que aproveito para partilhar convosco:

  1. Porque o dia acaba com feira (segunda-feira, terça-feira,...)? Saibam aqui
  2. Como surgiu a expressão “do arco-da-velha”? Leiam aqui
  3. Como surgiu a expressão “tortura chinesa”? Cliquem para saber
  4. Porque os homens escoceses usam saias? Vejam a resposta

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Mais Música Minha no Djaroz

Resolvi colocar mais três canções minhas no Djaroz, executadas a voz e violão e gravadas por Jeff, um conterrâneo de Gilles de Mirbeck, um francês apreciador da nossa música que abriu as portas da sua casa, em Achada Santo António, para receber a minha música, aquando da sua mais recente estadia entre nós.

Bila – é uma canção dedicada à Cidade de São Filipe (ilha do Fogo) e que surgiu de algumas observações minhas durante uma estadia de alguns dias. Curiosamente, apesar de ser a ilha dos meus pais, eu nunca tive oportunidade de lá passar muito tempo. Naquela ocasião, senti-me inspirado por coisas interessantes que vi e vivi naquela cidade.

Teatro di Rua –Em Setembro de 2005, altura em que estive em São Vicente a viver momentos mágicos no Mindelact, nas voltas obrigatórias pela Praça Nova, pude reparar num jovem chamado Nuno, mais conhecido por Girinóia, que andava na rua a pedir trocados. Bem, observei que ele agia como autêntico fingidor para poder convencer as pessoas a lhe dar algum dinheiro. Eu disse para mim mesmo: enquanto se faz teatro no Centro Cultural do Mindelo, na Praça Nova o Nuno está também a fazer o seu teatro, só que com a finalidade de sobrevivência. E isto tornou-se motivo para criar esta canção.

Serteza – esta procura, de forma mais neutra possível, fazer uma síntese da trajectória económica, cultural e política de Cabo Verde desde a Independência. Usei a palavra Serteza em sinal de evolução perante a Speransa, que havia sido usada por Norberto Tavares, há alguns anos.

Estas três juntam-se às outras quatro que já estavam na secção de links “Minhas Músicas”, situada do lado direito deste blog.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

CDs Com Alma

Que presentaço recebi no passado dia 30: Nhara Santiago, e das mãos do seu autor, o Nhonhô Hopffer! Ao ver e ler o Booklet (sério, de resto, por conter todos os elementos humanos e materiais complementares ao som constante no CD – letra das canções e seus respectivos autores, os artistas que participaram; os responsáveis pela parte técnica; os agradecimentos) e ao ouvir todas as músicas (Ai, como gostei do autocrítica do Nhelas Spencer e o Kor di Fodjada do Kaká Barbosa!), não tive dúvidas: é um CD com alma.

Aliás, devo confessar que esta ideia de CDs com alma viu-se reforçada em mim, ao ouvir a apreciação do Vadú sobre a cópia e a pirataria do seu novo CD: “És podi kopia Dixi Rubera, mas és ka ta kopia nha alma. (...)”

Temos assistido, cada vez mais, e com satisfação, à produção de álbuns (e o Nhara Santiago é um desses casos) em que os artistas têm cada vez mais liberdade nas escolhas e decisões sobre as músicas e os músicos que participam nele. Isto faz com que o produto final tenha a alma do protagonista ou protagonistas principais. Há vários casos, como o já referenciado álbum do Vadú (Dixi Rubera); o Badyo do Mário Lúcio; o Tras di Son do Djinho Barbosa; o Dança das Ilhas do Kim Alves e tantos outros.

Para concluir, penso que esses álbuns mereciam ser seguidos do livro que fala de todo o processo de sua produção, pois são uma teia de relações e de experiências com uma riqueza muito grande e que, portanto, deviam ser compartilhadas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Futurologia Nº2: A Nossa Política

Na rubrica anterior, debrucei-me sobre o futuro da nossa música. Hoje é a vez da nossa política e dos nossos políticos:

ü Abstenção Eleitoral - As taxas de abstenções atingirão níveis record. Poderá até chegar o dia em que as Urnas serão móveis e correrão de zona em zona, cutelo em cutelo, rubera em rubera, à caça de eleitores, assim como chegou-se a fazer no Sudão.

ü Os Meios de Comunicação Social – a) o Telejornal da Televisão Nacional também baterá record, mas...de falta de audiência, sobretudo nos períodos eleitorais e de sessões na Assembleia Nacional; b) Os canais privados terão programas de humor sobre a política e os políticos nacionais e cada estação terá um apresentador âncora no Telejornal que não terá complacência e nem medo de criticar a sociedade política nacional; b) o Radar do “A Semana” dará lugar a um Caderno de Várias páginas com direito a caricaturas.

ü Juventude e Política - As crianças e adolescentes das nossas escolas primárias e secundárias não saberão ou terão grandes dificuldades em acertar o nome do Primeiro Ministro.

ü A Linguagem do Estado - A linguagem do Estado será mais económica e menos jurídica. Os partidos políticos serão infestados por economistas (protagonistas do Orçamento), e os juristas (protagonistas da Constituição e das Leis) estarão cada vez mais a trabalhar para privados, especializando-se na arte de meter o Estado na Justiça, por qualquer coisinha, para lhe arrancar bons quinhões.

ü Os Partidos Políticos - Os Partidos deixarão de ser decisivos para as nossas vidas e não teremos mais receio deles e nem dos seus dirigentes. Pelo contrário, nós estaremos a exigir que quando estiverem no poder apliquem bem os impostos que nós, e as empresas fruto do nosso espírito empreendedor, pagamos a duras penas.

ü Campanhas Eleitorais - Os comícios perderão muito da sua graça, pois não terão mais aqueles grandes nomes da “nossa” música em cima do palco. De qualquer maneira, estarão abarrotados, pois é uma oportunidade para divertir-se um pouco, tomar uns copos... . Muitos não vão sequer saber dizer quem subiu no palco para discursar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Futuro da Música Feita pelos Cabo-Verdianos

Em 2008, uma rubrica que pretendo incluir na lista de labels do Djaroz é futurologia. Trata-se de um formato de tratamento dos temas que tentará provocar debates em relação ao que, daqui a alguns anos, teremos como sociedade, como cultura e como política.

Como não podia deixar de ser, o pontapé-de-saída é com a nossa música, ou melhor, a música feita por nós, pois não se trata somente de falar do futuro das nossos géneros musicais, mas sim das músicas que são feitas por cabo-verdianos, de uma forma global.

A minha reflexão resultou em 7 pontos:

1. A Lógica do Áudio-Visual - no futuro, não bastará somente ter somente talento musical. Ter uma cara linda ou um corpo escultural dará um grande jeito. A abertura de mais canais de televisão motivarão uma maior produção de videoclips que virão os seus custos reduzidos com os avanços tecnológicos.

2. A Reinvenção do Passado – Ao longos dos últimos anos, temos criado muitas canções. No futuro, os nossos arranjadores, com base nos seus conhecimentos mais aprofundados da harmonização e de composição, darão um rosto diferente aos nossos grandes sucessos. Provavelmente, poder-se-á ouvir uma gaita numa morna ou mais violinos introduzidos no funaná. (a versão Tito Paris do febri funaná de Codé di Dona é um sinal da viragem dos tempos).

3. Fusion & World Music Ltda – para o desagradado dos tradicionalistas conservadores, a nossa música para exportação vai ser isso mesmo: gente nossa misturada com gente de outras paragens para misturar estilos e cantar em crioulo, português, francês, inglês…..

4. Personalização de Estilos – no futuro, os músicos irão adaptar-se progressivamente à grande dificuldade de se unirem e vão se esforçar para, ao mesmo tempo, serem cantores, autores (fazem a letra das suas canções), compositores (criam melodias para as suas próprias letras), multi-instrumentistas (conseguem tocar vários instrumentos) e também produtores musicais (comandarão todo o arranjo da produção da sua própria música), com condições de arranjar músicas que dificilmente serão encaixados em algum estilo ou género convencionais. Haverá outros capazes até de serem produtores executivos e engenheiros de som do seu próprio CD!

5. A Música enquanto reflexo da Desigualdade Sócio-Económica – a linguagem da música electro-acustica será cada vez menos acessível à compreensão por parte da grande massa, em virtude da complexificação da harmonização e da estilização da linguagem na feitura das letras. A grande vantagem de tudo isto é que povão sentir-se-á desmotivado a piratear os CDs feitos nesse formato. A nossa classe mais abastada estará disposta a pagar o privilégio (ou o luxo) de assistir grandes espectáculos com estes tipos de artistas que, na sua maior parte, estarão mais fora do que dentro do país.

À grande massa restará a música electrónica que será a rainha absoluta dos táxis, hiaces, barbearias, salões de beleza, rádios, discotecas, comícios, festivais, etc.

6. Quota de Estilos Clássicos – haverá sempre essa preocupação de não deixar morrer os nossos géneros mais convencionais, havendo flutuações: um tempo é o batuco que reacende a chama, noutro é a morna, noutro a coladeira, o funaná, e assim por diante. Uma das medidas será o incentivo dado pelo Ministério da Cultura para quem incluir no seu CD canções feitas em versões clássicas desses géneros. Outra iniciativa deste mesmo Ministério será dar mais incentivos a rádios comerciais que passem, por exemplo, mornas durante certas horas... do dia!

7. Música na UNICV – Chegará o dia em que os Telejornais das várias televisões nacionais, públicas e privadas, mostrarão os recém formados em música da nossa Universidade a receber o seu diploma.

Se esse futuro é risonho ou não, cada um que tire as suas próprias conclusões.