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segunda-feira, 12 de maio de 2008

Mais Musica Minha no Djaroz

Depois de um período de interregno, eis que volto com mais música minha para dinamizar o blog. Escolhi três sons: Tom di Café, que é dedicado à minha querida irmã Matilde Dias; Pomba Branka, canção cujo tema é a paz; e por fim, Ta ser diferenti, uma música feita pensando no lema "Investir na Agricultura em Prol da Segurança Alimentar", que foi o lema do Dia Mundial da Alimentação de 2006 (16 de Outubro). A ideia central desta música é que se pudéssemos aproveitar melhor as águas que dispomos, tudo seria diferente em termos de desenvolvimento rural e do país, de uma forma geral.

Espero que gostem. Aviso que as músicas foram gravadas de forma crua, sem qualquer efeito ou montagem. Evidentemente que juntar-se-ão às outras músicas que já estavam aqui do lado direito.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Tudo em Casa

Duas coisas motivaram-me a fazer este post: em primeiro lugar, a curiosidade dos álbuns do Zeca e do Zézé di Nha Reinalda (Na Caminhu e Dokumentu, respectivamente) – tios – e do Vadú (Dixi Rubera) – sobrinho- terem sido lançados um atrás do outro, prova mais do que suficiente da vitalidade da veia artística desta família. Em segundo lugar, o facto destes álbuns, até onde eu sei, não terem sido alvo de apreciação na nossa blogosfera.

Na CaminhoZeca di Nha Reinalda

Já não era sem tempo! Isto é o que me apetece dizer sobre este trabalho do Zeca, pois este colosso da música nacional, que esteve recentemente entre a vida e a morte, brinda-nos com um álbum mais maduro, não virado somente para o puro entretenimento, como é caso dos seus anteriores trabalhos a solo. Por outras palavras, ele largou o mundo da vertente electrónica e voltou ao do electro-acústico, reunindo músicas com forma e conteúdo, do próprio e de outros compositores, a saber, Tey Barbosa, Katchás, Ney Fernandes, Zekinha Magra, Djinho Barbosa, Tony Rasta e Codé di Dona. O que me chamou particular atenção foi o número bastante significativo de Versões lentas do Funaná, o que a meu ver contribui para mudar um pouco aquela ideia de associar este género musical à dança ou ao puro entretenimento, ou se quiserem, à pura barulhada.

DokumentuZézé di Nha Reinalda

Quem bem me conhece, sabe o quanto eu aprecio o Zezé di Nha Reinalda. Por acaso, eu já tive a oportunidade de colocar aqui no Djaroz, uma interpretação minha do Teris ê ka Pexi, uma composição do Zezé, que o mesmo interpretou no Álbum Onti y Oji (1988). Ao ouvir alguns temas do Dokumentu, voltei a sentir saudades do Zezé dos Anos 80.

Curiosamente, ele resolveu abraçar o mundo da música electrónica justamente no momento que seu irmão, o Zeca, resolveu fazer o inverso. Penso que terá sido uma opção arriscada, pois já ouvi vários admiradores deste compositor comentar que prefeririam ver o Zezé electroacústico a que estão acostumados. Eu, particularmente, não tenho nada contra essa opção, no entanto, nas faixas que tive oportunidade de apreciar, considero que o Zezé - que tem provas dadas de que sabe cantar, contrariamente ao que muitos dizem injustamente por não gostarem do seu timbre de voz – manifesta um excesso de zelo em ornamentar as melodias e arriscando muito em variações de altura da voz.

Uma outra consideração é sobre as letras. Lembro-me de certa vez ouvir alguém dizer que as composições do Blik Txutxi não são arte, mas sim desabafos. Parece-me, e quero estar errado, que o Zezé tem estado sob um efeito negativo de ressentimentos, o que estampa um carácter sombrio às suas criações mais recentes.

De todo o modo, como reza aquele ditado Guineense, o erro não invalida o esforço desenvolvido. Espero, no entanto, estarmos errados - eu e outros apreciadores das criações do Zezé - nas nossas considerações e mudarmos de opinião ao acostumarmo-nos com o Dokumentu, sucedendo o mesmo que em relação ao Guentis d’Azágua que, conforme o Zezé disse ao Jornal A Semana (edição de 11 de Janeiro último), tivera também uma recepção pouco calorosa nos primeiros tempos do seu lançamento, mas que depois acabou por se tornar no sucesso que todos nós sabemos. Oxalá assim seja.

Dixi Rubera – Vadú

O Dixi Rubera é um álbum ousado, uma vez que há quase um rompimento com a linha de arranjos do anterior trabalho, tendo o Hernâni Almeida, com a mestria que lhe é peculiar, ido buscar ao Rock N’Roll e ao Blues elementos para vernizar as composições terra terra do Vadú, estas sim, sempre naquela linha de resgate de vivências rurais e rurbanas.

Este é também um álbum para ouvir com calma, e ainda bem que é assim, pois não se trata de um descartável, e com prazo de validade. Constitui uma oportunidade entender nesta obra a forma descomplexada como o Hernâni, o Vadú, o Mikau e a expertise sonora do Zunga deram corpo a criações que rompem amarras de tradicionalismos convencionais e abraçam a universalidade (e não globanalização!) do som.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ao Kaká Barboza: Em Jeito de Apreciação-Reacção... (a Post..Eriori...)

Caro Kaká,

Preparava eu, na tarde noite de ontem, para escrever um Post em uma espécie de apreciação-reacção ao teu bilhete quando, de repente, a Electra .... (o resto já sabes). Sendo assim, resolvi ligar a rádio do telemóvel e sintonizar a Rádio Nacional (RCV). Durante quase duas horas, ouvi músicas de qualidade, nossas e dos outros, a maior parte em formato electro-acústico. Pus-me a pensar: talvez eu tenha tido a sorte de testemunhar um momento raro ou então isto aconteceu porque, como justificarias, era de noitinha. Mas também pus a mim mesmo a questão: será que estou desactualizado e não percebi que a Rádio Nacional está a disponibilizar mais espaço para as músicas feitas por nós, e pelos outros, em formato electro-acústico (as mornas, a maior parte das coladeiras, um número razoável de funanás e batucos, “Dor” do Gil Semedo, o último CD do Gylito, alguns sembas, marrabentas, gumbés, etc,etc), depois que apareceu a versão Teen, a RCV+?

Sabes, Kaká, eu até entendo que as rádios comerciais sejam espaços onde os DJs aproveitam para mostrar que fazem melhor mixagem que os DJs da Concorrência e assim garantirem não só maior audiência na sua rádio, mas também mais biscates nas discotecas, afinal de contas, esta é a lógica deste tipo de mercado. Compreendo também que os DJs acreditem que o são só por saberem manejar os softwares e hardwares de mixagem e que, em termos de música, pensem que o importante mesmo é o Beat (ou a batida), pois falta-lhes alguma orientação mais aprofundada em harmonização.

No entanto, já se tratando da Rádio Nacional, que sempre teve, até onde eu sei, Técnicos de Som e não DJs, eu sempre espero algo mais, isto é, mais diversidade, mais “democracia” musical, mais equilíbrio entre o electro-acústico e o electrónico. Prometo-te que vou estar atento nestes dias à Rádio de Todos Nós para ver se dissipo estas dúvidas criadas pela noite escura de ontem.

Um Abraço.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Mais Música Minha no Djaroz

Resolvi colocar mais três canções minhas no Djaroz, executadas a voz e violão e gravadas por Jeff, um conterrâneo de Gilles de Mirbeck, um francês apreciador da nossa música que abriu as portas da sua casa, em Achada Santo António, para receber a minha música, aquando da sua mais recente estadia entre nós.

Bila – é uma canção dedicada à Cidade de São Filipe (ilha do Fogo) e que surgiu de algumas observações minhas durante uma estadia de alguns dias. Curiosamente, apesar de ser a ilha dos meus pais, eu nunca tive oportunidade de lá passar muito tempo. Naquela ocasião, senti-me inspirado por coisas interessantes que vi e vivi naquela cidade.

Teatro di Rua –Em Setembro de 2005, altura em que estive em São Vicente a viver momentos mágicos no Mindelact, nas voltas obrigatórias pela Praça Nova, pude reparar num jovem chamado Nuno, mais conhecido por Girinóia, que andava na rua a pedir trocados. Bem, observei que ele agia como autêntico fingidor para poder convencer as pessoas a lhe dar algum dinheiro. Eu disse para mim mesmo: enquanto se faz teatro no Centro Cultural do Mindelo, na Praça Nova o Nuno está também a fazer o seu teatro, só que com a finalidade de sobrevivência. E isto tornou-se motivo para criar esta canção.

Serteza – esta procura, de forma mais neutra possível, fazer uma síntese da trajectória económica, cultural e política de Cabo Verde desde a Independência. Usei a palavra Serteza em sinal de evolução perante a Speransa, que havia sido usada por Norberto Tavares, há alguns anos.

Estas três juntam-se às outras quatro que já estavam na secção de links “Minhas Músicas”, situada do lado direito deste blog.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

CDs Com Alma

Que presentaço recebi no passado dia 30: Nhara Santiago, e das mãos do seu autor, o Nhonhô Hopffer! Ao ver e ler o Booklet (sério, de resto, por conter todos os elementos humanos e materiais complementares ao som constante no CD – letra das canções e seus respectivos autores, os artistas que participaram; os responsáveis pela parte técnica; os agradecimentos) e ao ouvir todas as músicas (Ai, como gostei do autocrítica do Nhelas Spencer e o Kor di Fodjada do Kaká Barbosa!), não tive dúvidas: é um CD com alma.

Aliás, devo confessar que esta ideia de CDs com alma viu-se reforçada em mim, ao ouvir a apreciação do Vadú sobre a cópia e a pirataria do seu novo CD: “És podi kopia Dixi Rubera, mas és ka ta kopia nha alma. (...)”

Temos assistido, cada vez mais, e com satisfação, à produção de álbuns (e o Nhara Santiago é um desses casos) em que os artistas têm cada vez mais liberdade nas escolhas e decisões sobre as músicas e os músicos que participam nele. Isto faz com que o produto final tenha a alma do protagonista ou protagonistas principais. Há vários casos, como o já referenciado álbum do Vadú (Dixi Rubera); o Badyo do Mário Lúcio; o Tras di Son do Djinho Barbosa; o Dança das Ilhas do Kim Alves e tantos outros.

Para concluir, penso que esses álbuns mereciam ser seguidos do livro que fala de todo o processo de sua produção, pois são uma teia de relações e de experiências com uma riqueza muito grande e que, portanto, deviam ser compartilhadas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

CD: O Valor da Capa

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Stieve Andrade: - Lutchy, kuzé ki bu tem pa fla pa kenha ki kopia-u es bu novo CD?

Mário Lúcio: - Ta fika ta falta kapa!

Programa Secção da Música – Rádio Comercial (Novembro 2007)

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Para muita gente, a capa de um CD é uma mera embalagem. No entanto, valorizar a capa de um CD significa conferir à música um valor que transcende o seu carácter puramente fonológico. Uma capa que se preze contém todas as informações sobre os homens e as mulheres que concorreram para a elaboração da respectiva obra.

Além disso, uma capa séria tem informações fidedignas sobre as músicas: o autor, o compositor, o intérprete, os instrumentistas, os arranjadores, etc. Isto permite evitar equívocos como “Kuzas di Korasson” de Ildo Lobo; “Lua” di Mayra Andrade; “Ma mbá des bes kumida da” di Lura; “Miss Perfumado” de Cesária Évora, etc, etc, etc,…

Um CD sem capa (por outras palavras, copiado), ou com uma capa pobre, é um CD sem alma. Um CD “sem” capa será, muitas vezes, só som, pois até as mensagens contidas nas canções podem não ser correctamente compreendidas, seja por problemas de dicção do intérprete seja por percepção errada de quem ouve.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O “Outro” Casimiro de Pina

Amado por uns e odiado por outros, Casimiro de Pina é uma figura incontornável do nosso quotidiano mediático. Os seus artigos, normalmente feitos com base em sustentações teóricas muito sofisticadas e cujo conteúdo tem um indesmentível cunho político-partidário, têm suscitado as mais diversas reacções, desde a admiração e o respeito até ao desprezo e à repugnância.

Mas hoje eu quero falar do Casimiro, aliás do Nhonhas, enquanto músico. Trata-se de um guitarrista muito virtuoso, com sólidos conhecimentos de harmonização e de escala e com quem aprendi muito, sobretudo, quando costumávamos fazer sessões de toques aos fins de semana.

Já nos tempos de liceu entendia do assunto. Lembro-me de, numa ocasião, ter passado, juntamente com mais dois colegas, mais de uma hora à espera, impacientemente, que o Nhonhas “pegasse” uma sessão de solo de uma música chamada Não Sou o Único de um grupo português cujo nome agora não me ocorre.

Pois é, aqueles dedos não são bons apenas de pena. Como tratam bem uma guitarra!!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

OLHA SÓ QUEM FALA!!



Essa é boa!

No último CD/DVD Live dos Ferro Gaita, Beto Dias, um dos convidados desse grupo, ao começar uma das canções na qual participa, disse que a música feita pelos Ferro Gaita é verdadeiramente nossa, contrariamente ao que tem sido feito por muitos artistas nossos que rotulam de cabo-verdiano o que é do Continente Africano e que não tem nada a ver connosco.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Mário Lúcio e a Coincidência: Diogo e Cabral


Mário Lúcio Sousa acaba de lançar o seu novo Álbum (Badyo). Confesso que ainda não o ouvi na íntegra e espero poder fazê-lo em breve.

Sábado passado, no “Secção da Música” do Stevie Andrade (Rádio Comercial), este artista chegou a tempo de aguçar o apetite dos ouvintes para a próxima edição do programa, e o Stevie não resistiu a lhe pedir que fizesse referência à coincidência que o artista retrata no seu álbum.

Mário Lúcio disse que observou que a estátua do Diogo Gomes está ao lado da Presidência da República, e com a cara na direcção da Assembleia Nacional, ao passo que a de Amílcar Cabral está lá em baixo no Taiti e com a cara voltada para o Cemitério. Evidentemente que ele tratou de desmistificar esse facto, realçando que, às vezes, devemos brincar um pouco com as coisas sérias da vida.

No entanto, penso que este álbum, chegando no momento de abertura de mais um ano político, que tem a particularidade de ser eleitoral, pode dar o mote para a troca de farpas entre os nossos partidos políticos de maior expressão. Para já, basta pensar um pouco acerca do contexto no qual surgiram as duas estátuas para que se tenha matéria suficiente para a troca de galhardetes que, por sinal , já começou, embora timidamente, com as nossas maiores forças políticas a usar o telejornal da TCV para fazer o balanço da governação local, sendo que aquela argumentação batida só depende do lado que se está, situação ou oposição.

Voltando ao Mar_luz e seu Badyo, depois desta da coincidência, fiquei ainda mais curioso para ouvir a apresentação do álbum no programa do Stieve do próximo sábado e ver até que ponto este nosso artista peculiar está ou não a querer cutucar a(s) onça(s) com vara curta .


sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Direito de Autor Respeitado

Na passada terça feira fui chamado pela Harmonia para assinar a papelada referente aos direitos de co-autoria da Música Lingua Preto do novo CD do Tcheka, Lonji. Apreciei a forma séria como essa organização e o próprio Tcheka trataram o assunto, pondo fim a uma questão que surgira na sequência de um problema de comunicação.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Lembranças Musicadas de Uma Praia Rurbana


Achei curioso o facto do Baluka, no Kriolidadi da última edição do Jornal A Semana (imagem ao lado), ter aberto o seu artigo acerca do CD Lonji com uma referência a Língua Preto - cuja letra é da minha autoria, com alguns retoques do Tcheka, contrariamente ao que rezam o CD promocional e alguns artigos de jornal – como sendo uma música que lhe faz recuar ao seu tempo de infância em Assomada. A dada altura, Baluka escreve: “Durante toda a sua meninez, Tcheka viveu longe dos centros urbanos do seu próprio país, Cabo Verde, que nem sequer existiam na realidade.”.

A parte que eu destaquei nessa frase é muito interessante, pois praticamente responde à seguinte questão: como poderia alguém como eu, que viveu toda a sua infância e adolescência numa zona suburbana da Praia (Terra Branca, no caso) pudesse ter a legitimidade de fazer alguém viajar, por meio de uma letra de música, a vivências rurais do interior da Ilha de Santiago?

Sem entrar em muitos detalhes, o processo do povoamento de zonas como Terra Branca Baixo ou Tira Chapéu, para não citar outras, está intimamente ligado, sobretudo, ao êxodo rural e à imigração de gente de outras ilhas. Consequentemente, acabou por se verificar, em certa medida, uma reprodução das relações sociais do campo traduzida em coisas que hoje fazem parte do nosso imaginário, como por exemplo, as cabras e porcos criados nos terraços, que me inspiraram, aliás, a fazer uma música chamada Karru Sekretariadu, em alusão a toda aquela correria desesperada para pôr dentro de casa os animais soltos, antes que fossem apanhados pelo carro do Secretariado Administrativo da Praia (correspondente à Câmara Municipal nos dias de hoje), o que era, de resto, uma tentativa clara de romper com hábitos e costumes que não se coadunavam com a vida no meio urbano.

Outro aspecto marcante daquela vivência eram as relações de vizinhança, do Djunta mon, enfim, do chamado Capital Social Positivo. Lembro-me, por exemplo, da festa de Betom que, de tempos em tempos, juntava amigos, vizinhos, familiares para a colocação de cobertura da casa com massa de brita, areia e cimento, e na qual não faltava os indispensáveis feijão pedra e grogu. Como devem calcular, acabei inevitavelmente por fazer uma música a respeito de título Festa Betom.

Enfim, isto tudo para dizer que eu não precisava ir ao interior da ilha de Santiago para que pudesse estar legitimado ou “autorizado” a reproduzir algo do imaginário colectivo como a estória das fiticeras. Isto fazia parte do quotidiano do meu mundo suburbano, peri-urbano ou rurbano! Reconheço, no entanto, que eu não teria a mesma legitimidade em retratar vivências que envolvem “poial”, “cutelo” ou trabalho da terra (“monda”, “korta”,...), por uma razão muito simples: são elementos ligados ao meio rural enquanto espaço físico.

Por outras palavras, , nós que crescemos na Praia suburbana dos anos 80 não estamos necessariamente condenados a bater perna até ao interior para fazer rakodja de modo a criar música terra terra. É só irmos à memória (re)buscar vivências daqueles tempos e recuperar muita coisa interessante à espera da sua vez de sair cá para fora e fazer muita gente reviver o seu passado e suas raízes, seja do meio rural seja do meio suburbano.

Bem, e agora para finalizar, aproveito a ocasião para colocar na integra a letra da Música Língua Preto, pois o Tcheka abdicou de partes da letra na versão que adaptou para o CD, para que possamos fazer juntos essa viagem à estória sobre Nha Bedja Fiticera:

Língua Preto
(Djoy Amado)

(estória da mulher preocupada em proteger o seu filho, desde a gestação à maioridade, das garras da sua vizinha alegadamente feiticeira)

Lingua preto,
Rabo kumpridu ki ta cendi
Konchedu tambe pa boka fédi
Ta bira gatu pretu di madrugada

Fladu fla
M’ê kumi Pedrinho di Nha Amélia
Ê pôl ku korpu só kocerinha
Ê n-gabal kabelu ti npintxu sai



Ontonti ê pidi-m águ
n-da’l y n-borka’l kaneka,
ê fika ta tuntunhi
ê kaba pa pidi pa n-dexa’l bai

Nha fidju ê ka ta kumi
Nha fidju ê ka ta nguli
Dja n-toma pruvidência,
n-ka ta nsoda nau:



fumador d’arruda tres bes pa simana
ádju prindadu tras di porta
baboza na lata la kintal
sal spadjadu riba kaza

n-deta kuel séti dia kantu ki ê nasci
n-pôl guarda maradu na cintura
n-ta salta’l tres bez di vez em kuandu
n-po’l ta prendi fazi fisga kanhota

sábado, 10 de novembro de 2007

A "Arquipelaguização" do Funaná

“Da música circunscrita aos meios rurais, o Funaná transformou-se numa das maiores conquistas no domínio da música, no Pós-Independência de Cabo Verde. (…)”

Carlos Gonçalves, Kab Verd Band, pag 71.

“Antes confinado unicamente ao mundo rural, o funaná é o género musical cabo-verdiano que maior evolução alcançou nos últimos vinte anos.”

Manuel de Jesus Tavares, Aspectos Evolutivos da Música Cabo-Verdiana, pag. 34.




O Funaná praializou-se nos anos 80 e, nos últimos anos, tem estado a arquipelaguizar-se e a diasporizar-se. Há vários exemplos dessa expansão do fenómeno funaná, que curiosamente não só a ver com gentes de Barlavento, ou da ilha do Fogo ou da Brava a escutarem, por exemplo, os Ferro Gaita. Está também ligada ao facto de artistas que não são da ilha de Santiago (ou badius, se preferirem) passarem a fazer criações baseadas nesse género musical.

O facto que ultimamente mais me chamou atenção tem a ver com a Música Pedra do CD da Gabriela Mendes. Até onde eu sei, esta música é um funaná lento (se não for, que alguém me explique porquê), cuja letra é do Vasco Martins, portanto, um integrante da mainstream musical de São Vicente, os arranjos foram feitos pelo Hernâni, outro nome sonante da mesma ilha, com interpretação vocal da Gabriela Mendes, que não tenho a certeza que seja da mesma ilha, mas que certamente é também de Barlavento.

Como podem reparar, trata-se de um funaná lento eminentemente mindelense, desde a letra, passando pelos arranjos e chegando à interpretação vocal. Para mim, isto é sinal que estamos aos poucos a diminuir os espaços preenchidos pelas rixas, querelas ou quezilas, que não nos levam a parte alguma, e a substitui-los por comunhão, criatividade e trabalho.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Mix Cultura

Quando o Kizó resolveu metralhar o festival baía das gatas no seu cvmultimerdia.blogspot.com, entre mortos e feridos, o Grupo santantonense Mix Cultura saiu ileso. Na sequência deste artigo letal, Paulino Dias também teceu no seu algumas considerações sobre o jovem Titita, um dos integrantes da banda.

Isto fez-me recuar a Julho de 2003, altura em que estive em Ribeira Grande numa missão de serviço. Tive nessa ocasião a oportunidade de conhecer alguns elementos da banda, mais concretamente, o Titita que me surpreendeu pelo interesse pelas músicas do Orlando Pantera a ponto de não me dar sossego enquanto não lhe passasse a letra da música Lapido na Bó. Não tive a oportunidade de saber se o Titita chegou a aprender a cantar a complicada letra daquela música, ao som do seu virtuoso toque de cavaquinho, mas a julgar pela sua perseverança e talento, acredito que te-lo-á conseguido.

Só ouvi ainda uma musica daquele álbum (vi, por acaso, a capa no Quintal da Música) e notei naquela faixa algum espírito inovador e de criatividade daqueles rapazes que penso terem sido dos poucos que se deleitaram com a passagem triunfal do Orlando Pantera pelo Festival Sete Sois Sete Luas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O Novo CD do Tcheka: Gostei, e Pronto!

As pessoas que me conhecem, certamente, estariam à espera que, uma hora ou outra, eu falasse do Novo Álbum do Tchekops. Ora bem, aí está.

Pensei em ouvir o novo álbum do Tcheka através de um processo de meditação. Após tê-lo feito dessa forma, posso dizer que gostei, e pronto!

Este CD, como se costuma dizer no bom criolo santiaguense, “Da-m ku stangu”.

Ouvi o Lonji sem pensar.

Sem pensar que se tratava do terceiro álbum do meu amigo kadjeta. Sem comparar este ao Argui e ao Nu Monda. Sem pensar que lá há uma composição minha (passe a publicidade).

Ouvi o Lonji sem pensar.

Sem pensar se o Tcheka é ou não é da geração Pantera; sem julgar Lenine e seus convidados; sem remoer-me com o alegado marionetismo da Harmonia.

Simplesmente ouvi o CD, sem pensar

Sem pensar que o Oboé ou a Trompete estavam a mais e o baixo a menos. Sem pensar em ouvir o que lá deveria estar e não está.

Limitei-me a ouvir o Lonji.

Sem pensar nas análises cirúrgicas acerca deste álbum feitas pelo Djinho e pelo Kizó . Sem a preocupação de ser a favor desta ou daquela opinião acerca deste trabalho.

O que posso dizer é que, no final da meditação, gostei do que me entrou pelos ouvidos, só a sentir, sem pensar em nada.

Gostei, e Pronto!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

ORLANDO PANTERA

Se estivesse vivo, teria completado ontem a bonita idade de 40 anos.

Pois é, nasceu no Dia de Todos os Santos e morreu com a idade de Cristo, numa Quinta Feira, que era o seu dia no Quintal da Música. Coisas curiosas ligadas a este artista super especial.

O DESABAFO DO KIZÓ

O desabafo de Kizó sobre o Novo trabalho do Tcheka e a trajectória desse artista é muito interessante porque é muito mais abrangente e mais profundo. É muito mais do que uma crítica sobre o trabalho do Tcheka e sua carreira musical.

Penso que o pano de fundo da indignação e da angústia desse virtuoso baixista tem a ver com uma coisa que tenho constatado na nossa realidade e que não se refere só à música. Há dias, num encontro organizado pelo Ministério da Agricultura e a ONG americana ACDI VOCA sobre a valorização de hortaliças no nosso país, uma agricultora desabafou: “nós (agricultores) nu ta xinti ma nós ê ka ninguém”. Ela deixou claro que eles não se sentem valorizados e respeitados.

Pois bem, penso que isto também se aplica à música, isto é, a tendência nossa é para valorizar mais o produto musical do que os artistas que o concebem, sobretudo os que estão no plano da execução (ou acompanhamento, como queiram).


Vou contar-vos uma situação vivida na primeira pessoa para ilustrar um pouco o que quero dizer. Certa vez, fui convidado a integrar uma banda improvisada para animar um evento. Chegando ao local, ao avistar alguns amigos que faziam parte do convívio, não pude deixar de trocar dois dedos de conversa com eles. Eis que uns dos organizadores do evento, ao saber que nós (eu e os restantes integrantes da banda) estávamos lá na qualidade de banda musical, foi taxativo: “Vocês não devem se misturar a nós. O vosso lugar é ali. Vão para lá e aguardem o momento de actuar.”
Nós só ficámos por insistência dos amigos que por lá encontrámos e da pessoa que nos convidou, que, com o intuito de mudar a nossa imagem perante os restantes convidados e o responsável pela cena desagradável, achou por bem dizer aos presentes que todos nós do grupo éramos licenciados!

Tudo isto para reiterar que o que Kizó fez não foi mais do que abrir os nossos olhos para a falta de respeito para com os nossos músicos, de uma forma geral. Não é, mais uma vez, só oTcheka que está em causa e nem só o seu álbum e sua trajectória. É todo o processo em volta da produção musical (CD, DVDs, espectáculos, etc) e a corrida desenfreada por dividendos que dela resultam, com consequências nefastas para a qualidade.

É pena que a nossa visão crítica muito curta e circunstancial nos atraiçoa e leva-nos a pensar que pessoas como o Kizó ou o Paulino Vieira são rebeldes sem causa, têm um dor de cotovelo, etc, etc. É pena...